O ENTRE-LUGAR DAS HOMOAFETIVIDADES
Denilson Lopes-UnB
Afinal, por que estamos separados se sentimos tanta saudade? Afinal percorremos – você vindo e eu indo – a mesmíssima avenida que percorre idêntica em todos os detalhes sua cidade e a minha.
“Postcard” de Marilene Felinto
E tua alegria tornou-se um país estrangeiro.
“A Folha está Terminando” de Felipe Nepomuceno
Hoje, a condição estrangeira se dissemina e se massifica, diante dos cada vez mais intensos fluxos migratórios que atravessam o planeta. Nesse contexto, o que pretendo tratar não é tanto da experiência de mal-estar do intelectual moderno exilado, seja por dificuldades políticas e/ou pela perda de papel social no seu país. Também não se trata mais do horizonte existencialista, pós-Segunda Guerra Mundial, em que o estrangeiro assume um posição universalizante, metáfora da experiência humana, em que todos somos estrangeiros onde quer que estejamos, estranhos diante de um mundo que não carrega mais sentidos transcendentes (ver A Náusea da Sartre). É claro que estas duas construções ainda estão presentes neste fim de século, mas gostaria de produzir um deslocamento culturalista. Os textos sobre que vou falar tratam de personagens urbanos, de classe média, não marcados por perseguições políticas, nem por uma excepcionalidade mitificadora das margens. Também esta experiência estrangeira se traduz em pequenas circunstâncias cotidianas (trocadilhos não compreendidos, gestos reprovados etc) em que o confronto e diálogo com o outro se dá de uma forma direta. Pequenas dores, pequenas alegrias. Nada de dilaceramentos diante dos absurdos do mundo, nem de confrontos identitários muito óbvios. O recuo para a intimidade não implica uma alienação, mas um tom menor.
Se os estudos culturais estão nos fazendo repensar a literatura brasileira, a partir de um fraturamento da identidade nacional, tornando esta mais descentrada, na medida em que são colocadas em pauta noções como hibridismos culturais, fronteiras flutuantes, derivas gendéricas, que servem para ressituar, reler autores canônicos da modernidade (como Clarice Lispector), resgatar outros esquecidos (como Samuel Rawet), bem como estabelecer diálogos com obras que têm enfatizado o olhar estrangeiro como forma de construção artística (como Rastros de Verão de João Gilberto Noll, Senhorita Simpson de Sérgio Sant’Anna, Postcards de Marilene Felinto, Ana em Veneza de João Silvério Trevisan, Relato de um Certo Oriente de Milton Hatoum, Teatro de Bernardo Carvalho, Salim Miguel, Ana Miranda, Moacyr Scliar, Felipe Nepomuceno), gostaria de falar de um lugar bem preciso. Comentar Keith Jarret no Blue Note de Silviano Santiago, Estranhos Estrangeiros de Caio Fernando Abreu e Na Companhia dos Homens de Alexandre Ribondi, a partir das relações estabelecidas entre homens diante dos fluxos interculturais. Esta experiência homoafetiva, com especial ênfase nos frágeis limites do amor e da amizade, se coloca numa situação permanentemente intervalar, para além de uma identidade homossexual ou de uma sensibilidade homoerótica. Este entre-lugar articula personagens em que sua nacionalidade e sexualidade se apresentam entrelaçadas e em trânsito, procurando me diferenciar da leitura deleuziana da obra de Caio Fernando Abreu feita por Cristopher Larkosh (1999) em que coloca Caio como escritor multilíngue. “Muitas das experiências pessoais se mostram intraduzíveis dentro de uma língua, ou impossíveis de transpor para um único lugar. O narrador, assim, tenta dar uma possível explicação para a possível incompreensão dos ultrapasses nomádicos e multilíngues de fronteiras, dentro da série de espaços sedentários, nacionais e monolíngues”. O viés é interessante mas talvez mais fecundo para obras que primaram pela inovação lingüística, com Catatau de Leminski ou Mar Paraguayo de Wilson Bueno.
Como nos lembra Anne McClintock: “All nationalisms are gendered; all are invented, and all are dangerous” (1998, 89), no sentido em que eles representam relações com o poder político e com as tecnologias de poder (idem). A nação é uma experiencia de identificação compartilhada (idem) que paira sobre nós, como sistemas que legitimam o acesso ao Estado-Nação. Ainda que nossas sensibilidades sejam definidas cada vez mais por fronteiras mais ou menos frágeis e fluxos culturais, é importante lembrar que o nacionalismo deriva de uma memória masculinizada, humilhação masculinizada e esperança masculinizada (idem). E se as mulheres, no período de formação de nossa literatura ainda entravam como símbolo, mas não como agentes (idem, 90); nós homossexuais, invisíveis e/ou indesejáveis, obviamente não chegamos sequer a ser símbolos nacionais e muito menos agentes, fomos e somos excluídos de espaços legítimos de reprodutibilidade e socialização, marcados pela ausência de famílias gays com filhos e pela dificuldade de estabelecimento de modelos familiares inter-geracionasis de forma estável. A solidão dos personagens de Silviano após a morte dos companheiros (“Amizade construída duma maneira adulta e egoísta como só dois solteirões podem construi-la sem os entraves da esposa, dos filhos e das constantes reuniões familiares” – 123) e da pouca presença dos amigos (“consolation provisoire” para Ceccaty), homo ou heterossexuais dá o tom da literatura brasileira contemporânea na quase ausência de relações amorosas estáveis entre homens (diferente da literatura norte-americanam, como no trabalho de Michael Cunninghan). A invisibilidade do homossexual o impedia de ter um papel claro na cultura nacional ou resultava numa submissão a dualidade gendérica masculino/feminino, com sutis formas individuais de resistência e sobrevivência, com o consequente recolhimento no espaço privado ou nos guetos. Não estou reduzindo o discurso literário ao político, mas tentando uma leitura política do literário, sem que uma esfera se submeta a outra. Não estou falando aqui de abstratas noções de diferença e identidade, mas de uma experiência que se traduz numa alegria de pertencer e compartilhar, numa alegria ao se constituir como intelectual particular, do escritor, gay (para usar termos de Silviano Santiago), anverso da construção do intelectual moderno exilado, melancólico. É essa alegria o meu lugar de fala agora.
Começo com o mal-estar de “Days of Wine and Roses” de Silviano Santiago. Acordando em uma madrugada de domingo, o protagonista nomeado como você (recurso que se repete no livro inteiro), parece estar num limbo temporal e espacial, não só por causa deste estado intermediário entre o sonho e vigília, mas por não se sentir pertencente, nem na própria casa, que lhe parece um quarto de hotel (54), em que os próprios móveis parecem indicar uma recusa (ver 54). “A poltrona é velha e pouco cômoda. Está encardida pelo uso. Ela não combina com você. Você não combina com ela” (53). A situação que poderia favorecer o devaneio ou um encontro consigo mesmo, apenas marca a solidão diante da imagem da rua vista pela janela, diante dos compromissos para o fim de semana desmarcados na secretária eletrônica. A secura da paisagem sob a neve encontra, ecoa e amplia o desamparo. “Vocë imaginou que não havia casas na cidade. Não há casas. Só ruas. Você imaginou que não havia famílias na cidade. Não há famílias” (55). Casa e cidade são espaços físicos e afetivos de desolação. Estrangeiro numa cidade desconhecida, solitário na casa, insatisfeito com o que passa na televisão, eu aceitando o convite começo a me ver na narrativa, aspirado, seduzido por este você. Dois eus frágeis se encontram, o do leitor lançado à narrativa e o do narrador que recusa a primeira pessoa. A dificuldade em se enunciar, em se confessar do narrador que poderia ser o mesmo durante todo o livro, ou pelo menos, nos três contos escolhidos para ser analisado. Como se a liberdade possibilitada pelo improviso do subtítulo se contrapusesse ao uso do você, marcado por um certo pudor da autobiografia, não fosse o autor já de longa data hábil em transitar pelas fronteiras entre a ficção e a realidade. Silviano se permite uma afetividade, pouco comum na sua obra. Mesmo a citação de Keith Jarrett tem menos um papel metalinguístico do que afetivo. Ela constitui uma memória pessoal, recurso de identificação com o leitor, não um exercício de pastiche. Mesmo o distanciamento de voyeur que poderia haver ao colocar um discurso tão íntimo em segunda pessoa só se desloca em relação ao crescente confessionalismo da contemporaneidade, a obsessão pela auto-revelação. A música é uma metáfora para uma narrativa caudal, que se desdobra pela memória, pelas impressões, e rompe as amarras do olhar vigilante de si mesmo e do outro.
Começa também a lembrança. Da madrugada de domingo vamos ao início do fim de semana, sexta-feira. A solidão do presente remete a uma procura na memória, ou melhor, a uma disponibilidade para o passado. Até chegar na quinta-feira, um calendário invertido. Como não sabia porque estava naquela cidade, também não sabia porque ligara a Roy, de quem fora amante por seis anos, vivendo em “apartamentos separados e [na] mesma cama” (63). O sexo criou a intimidade, não o contrário. Reencontro pelo telefone, sem corpo, sem olhos nos olhos, só voz, depois do desaparecimento após anos. Não o pedido humilhado de uma mulher apaixonada ao homen que não a ama mais de “A Voz Humana” de Cocteau. “Você pensa agora que o telefone é uma forma de encontrar uma pessoa sem verdadeiramente encontrá-la” (57). Há todo um ritual cotidiano que antecede. A sopa. O corpo quase nu, que se sabe depois, envelhecido. A sobremesa. O uísque. Novamente o uísque.
Começam a conversar, a jogar. É o outro, ele, Roy, que pede. O número do telefone. Você quer dominar, achar razões para ligar. Você até acha. Você quer controlar. Começa o streaptease. Primeiro, as roupas descritas, depois o passado compartilhado aflora. Ironias e ciúmes. Os amigos perdidos no mundo. Os amigos sobre quem se silencia não por pudor diante da morte, da AIDS, mas para não ser redundante, talvez. Não há o que falar, nada para esconder. Resta a constatação da mudança nos bares que fecharam, do corpo que muda. De uma identidade gay transitamos para o horizonte da experiência cotidiana.. Aflora a mágoa. E você conduz a fala para que a “ternura ressentida e silenciosa” (64) não invada a conversa, para que não perca o controle sobre a afetividade. Esta perda só vai acontecer no último conto, “When I fall in love”, diante do amigo, amante morto. Ao outro, a voz é cedida, ao permitir que dê a versão de sua estória, de seu primeiro encontro, mas só quando o outro não está mais lá. Tarde demais. Não só as lembranças irrompem mas os afetos. Mas nem tudo acaba com a morte. As pequenas brincadeiras fazem do protagonista envelhecendo retornar à infância. Pelas memórias o corpo volta a ser criança, sem passado, sem dor, sem ressentimentos, ainda que por um momento (ver também De Cócoras): tapar e destapar o ouvido para não congelar em “Days of Wine and Rose” e o chicotinho queimado no fim de “Autumn Leaves”. Em “When I Fall in Love”, o fim é sério, sem a brincadeira infantil no fim de “Autumn Leaves” que nos resgata da auto-complacência, auto-piedade, mas o jogo ainda não acabou. “Se você nunca soube quando tudo começou, como vai poder adivinhar como tudo vai terminar? é o que você se pergunta” (147). É que me pergunto, nesta estória de amor entre leitor e autor, plenamente assumida, a única que se passa no Brasil, no Rio de Janeiro, como também no conto fora desta coletânea, ainda inédito em livro, “Uma Casa no Campo”. Voltando a “Days of Wine and Roses”, também é tarde demais para que o protagonista assuma, nomeie seu passado, sua “longa relação sexual e amorosa” (65), nos seus limites, mas sem subestimá-la pela ironia. “Você sabe que não foi um caso. Pode não ter sido paixão mas classificar o relacionamento de caso é minimizar experiências que te constituíram e te transformam no que você é hoje” (66). Há uma luta entre a explicação, os porquês e o que as coisas simplesmente são, sem palavras suficientes. Com a idade, não vem a sabedoria do velho narrador tradicional, o que nos chega desse romance de contos mistura a constatação da perda e uma frágil sobrevivência num cotidiano hostil, estrangeiro, que resiste a ser afetivizado, mas no entanto o é. A lembrança final do gozo físico é como se instaurasse uma ética do desejo, mesmo na constatação do desamor, em que estes pares se nutrem um do outro, não se opõem. “Três da madrugada/tudo e nada/a cidade abandonada/e essa rua não tem mais/nada de mim.../nada” (Torquato Neto). O pertencimento está num encontro passado. Amor entre estrangeiros. Um, brasileiro, que sempre viaja, agora em pequena cidade do interior dos EUA (poderia ser a mesma de ”Autumn Leaves”). Outro, norte-americano em NY, que nunca viaja, nunca muda de lugar, telefone. No final, vem a resposta, Roy dá o troco. Muda de telefone e não permite que a companhia telefônica avise o novo número. Os personagens estão num entre-lugar, que não é um não-lugar (Marc Augé). Não se trata de um espaço de passagem impessoal. Apesar do incômodo, esta espaço de trânsito é um lugar afetivizado, que se situa também num entre-tempo, como aparece em “Autumn Leaves”: “Você estava (e ainda está) convencido de que nada do que se está passando nessa temporada de neve, frio e chuva está sendo feito para durar” (32). Não se trata de falar de um tempo atrasado, como de um lugar reificadamente à margem, nem de um fluxo constante que tudo nivela, nadifica, indiferencia. A melancolia existe não como idealização de um passado morto mas trata-se de um “entre-tempo”(BHABA, H.: 1998, 338) que emoldura e constitui um entre-lugar, na frágil possiblidade de uma alegria minoritária e não tanto de mal-estar de intelectuais à sombra de Adorno, que se recolhem a não conseguem enxergar para além do dilema revolução ou um caos que abra para autoritarismos. Aqui existe um certo cansaço, mas não ressentimento. Não mais o tom empenhado, quase engajado, de “O Entre-Lugar do Discurso Latino Americano”, mas uma certa deriva entre fronteiras e barreiras que se multiplicam e se deslocam. Silviano, trinta anos depois de seu ensaio clássico, se recolhe, se afasta cada vez mais da figura de um intelectual maior. Tempo de projetos menores, pensamentos débeis, sensibilidades frágeis para o presente. O narrar, a experiência substituem as polêmicas de uma universidade que cada vez mais se profissionaliza e se auto-legitima. A cada vez mais visibilidade do escritor diante do ensaísta parece reafirmar esta escolha por uma política do afetivo
Se para Silviano tudo parece estar tarde demais, o afeto revelado como transitoriedade, lembrança perda, havendo mesmo uma recusa da condição estrangeira (“você passou a ter ódio de ser reconhecido como estrangeiro”, 26) pela sua estigmatização em favor de um pertencimento no passado ou em lugares públicos, o tom muda um pouco na procura do encontro em Caio Fernando Abreu e Alexandre Ribondi, no sentido de uma ética da deriva, valorizadora dos encontros momentâneos, e de uma felicidade estrangeira.
As fronteiras parecem quase não haver nos contos de Ribondi. Transita-se do interior de Goiás ao Iraque, da Alemanha ao Sul da França e Brasília. O deslocamento não recupera a noção iluminista da viagem como formação, enfatiza apenas a transitividade que está inclusive na passagem de personagens de um conto para o outro, como se dissessem ao leitor: nós sobrevivemos a estória que você acabou de ler, nós escapamos à escrita. Os personagens deslizam pela escrita na mesma medida que deslizam por espaços diferentes. Não se trata de identidades, mas de posições marcadas. O desejo é uma forma de pertencimento, de encontro, mesmo quando não de inclusão. Aqui o encontro entre homens se dá sutil e inesperadamente. As palavras não são pronunciadas não por se recusar a dizer, mas para aprendendo com o corpo. Os olhares são físicos, não de voyeur (ver 28). Olhares não se desviam, falam (32). Em “A Descoberta do Fogo”, a descoberta do jornalista brasileiro, casado, com filhos, pela atração por um outro homem, um fotógrafo alemão, ambos cobrindo a Guerra do Iraque ocorre sem culpas, sem dissimulações: “pela primeira vez, como uma surpresa adiada mas presente todos os dias da minha vida, estava frente a frente com outro corpo masculino” (33). O sexo acontece, mas longe da fixação no ato, se distende pelo corpo. Quando o fotógrafo chama o protagonista de amigo (35), não se trata de eufemismo, mas de uma amizade sexuada, não o encontro idealizado e platônico entre amizades masculinas ou de relações entre homens, caracterizadas por homofobia, medo e ódio à homossexualidade, para usar os termos de Eve Sedgwick, ao estudar formas do “desejo homossocial”, ou de homossociabilidade homofóbicas (1985,1) até o século XIX, no mundo anglo-saxão. Não pretendo apenas cunhar mais um termo, mas penso que falar em homoafetividade é mais amplo do que falar em homossexualidade ou homoerotismo (ver Jurandir Freire Costa), vai além do sexocentrismo, bem como é um termo mais sensível para apreender as fronteiras frágeis e ambíguas entre a homossexualidade e da heterossexualidade. Uma política da homoafetividade busca cunhar alianças, que descontrói espaços de homossociabilidade homofóbicos ou heterofóbicos, implica pensar num contínuo nas diversas relações entre homens (entre pai e filho, entre irmãos, entre amigos, entre amantes). “A novidade do outro corpo masculino não era o que me fascinava. Axel não me salvava de nada, porque não havia perdição anterior que pedisse salvação” (34). Entre o suave desencanto, acertos de conta com o passado de Silviano e o arrebatamento quase místico de Caio, os contos de Ribondi são suaves, delicados, mas nunca apontam para a transcendência. A dor nunca tira a beleza do momento. A procura modesta não se encerra com o fim da estória porque há uma outra estória. O momento não sacia mas é o que temos. “É uma lástima o breve prazo de uma vida. Porque é sempre longo o encontro entre dois corpos” (39). A felicidade não está nas palavras, nem em redenções, mas em pequenos gestos como o colocar a mão no ombro do outro, durante a caminhada, antes da despedida (41).
Em “A Saudade do Ar”, o tom é o de reencontro de ex-amantes. Aqueles que ficam na lembrança, mortos ou esquecidos, do outro lado do telefone, retornam. Encontro marcado, no sul da França, depois de longa ausência. “Quando nos encontramos, ele teve vontade apenas de me desejar uma boa noite e entregou as flores amarelas. Eu lhe entreguei as mangas-de-cheiro” (44). Estórias são contadas, compartilhadas. Deitam juntos. “Quis me beijar mas, no caminho entre a boca de Manuel e minha boca, ele deixou exalar o primeiro suspiro do seu outono.” (46). As lágrimas de Manuel falam de partidas, de perdas, de solidão, tudo que pode ficar demasiado pesado, piegas ao ser falado, algo que não consegue ser expresso. A intimidade vem do observar um AO outro. A relação não coloca o sexo como central, mas esta intimidade, que mesmo quando não há mais sexo, permanece. O tempo não volta atrás, não houve reencontro, o que houve foi um encontro. Apenas. Nada de irremediável, duradouro, nem a dor.
Em “O Derretimento da Neve”, o protagonista cai, o instrutor de esqui ri. Convite para bebida mais tarde. Tudo muito rápido, nas primeiras linhas. Sem recusa, negaceios, ironias, como nos contos de Silviano. Encontro em meio a viagens. “Só quero saber do que poder dar certo/ Não tenho tempo a perder”. A cidade estrangeira se torna uma casa, um mundo enorme, sempre à espera, para ser descoberta. E a casa do amante, Gúnther, onde viveu por dois meses, é espaço de encontro, mesmo que haja uma despedida. “A despedida foi feliz. Ou quase feliz. Um pouco feliz. Houve traços de felicidade. Disfarcei os olhos, senão chorariam. Fiquei com Veronete para vasculharmos a cidade até o fim” (93).
Em Caio Fernando Abreu, a procura se faz mais ativa, decisiva. Em “Bem Longe de Marienbad”, o narrador em primeira pessoa chega a Saint Nazaire, pequena cidade do norte da França, à procura de um misterioso K. O desejo de encontro que começa como fantasia, pouco a pouco, através de um ritmo de quase suspense, se traduz numa valorização da experiência da espera, uma experiência para ser contada a alguém (22), presente nos próprios titubeios em iniciar a narrativa. Narrativa que conjugada à memória aparece como salvação, termo ausente nos contos de Silviano. Salvação pela ação (30), pela viagem (33), por ser estrangeiro, que se traduz na possibilidade do encontro, para além da palavra, para além da realização. O personagem de Caio se expõe mais. A delicadeza é a marca do seu olhar, não a sátira e cinismo demolidores, nem a contenção afetiva, nem o silenciamento. Silviano está mais para Graciliano Ramos, como Caio está mais para uma “linhagem dos meninos delicados de nossa literatura que se queimam num romantismo exaltado”(CHIARA, A.: 1999), que vai de Álvares de Azevedo a Cazuza e Renato Russo, linhagem marcada pela entrega, pela confusão entre vida e arte, pela teatralização da dor, pela crença no amor, por uma doce afetividade, que se aproxima de Manuel Bandeira pela “compaixão que se forja na solidariedade dos que se acostumaram a ser irremediavelmente solitários, porque compreenderam que todos são sós mesmo quando não estão sós”. Chiara acaba por sugerior todo um programa para uma arte afetiva contemporânea: “sem muito desespero, que é inútil, sem pieguice, que é meio de mau gosto, sem cinismo, porque já basta a desrazão, mas com suave ironia para poder suportar o peso”. Tudo parece improvável nesta procura de K. É a delicadeza, a hipersensibilidade que é ao mesmo tempo causa de mal-estar e possibilidade de alegria. Das delicadezas inúteis (24, 30) é que nasce a modesta alegria. Pensamos que K poderia ser o duplo, o próprio protagonista. Mas na passagem da cidade inóspita para o apartamento de K, a memória vai dando espessura e concretude a K, singularidade ao lugar. O encontro é uma necessidade (28), um ato de vontade, não mero acaso, ainda que muito dele dependa, uma deriva marcada por tédio, mas pela crença. “Meu coração bate louco, tenho as palmas das mãos molhada quando abro devagar a porta deste apartamento onde K com certeza estará” (27). E mesmo que não esteja, seus vestígios registram menos uma perda mas uma aproximação. “Posso sentir perfeitamente nesse espaço o cheiro do corpo vivo de K” (27). Há uma esperança: “Histórias como esta costumam acabar bem e, mesmo que não se viva feliz para sempre – afinal, não se pode ter tudo –, deve haver pelo menos algum lugar quente e seco para abrigar o final da noite” (25). A casa, mesmo como lugar de passagem, provisória, é um abrigo. Dentro da casa, em meios a vestígios, o outro deixa uma nota, também K saiu à procura, à procura do protagonista (39 e 41). Escrever seria “recolher vestígios do impossível” (39), mas a vida está alem da escritura, o encontro está além da palavra. “Aos caminhos, eu entrego o nosso encontro” (41). Diferente da analise feita por Evando Nascimento, a partir de Freud e do pensamento da diferença, que parece uma atualização da condição do estangeiro dentro de uma clave trágica e existencialista, como aparece no fecho da primeira parte de seu ensaio: “O Estrangeiro está condenado, preso à rocha, a ter seu fígado eternamente devorado. Um ser eternamente dividido, entre a fria França e o cálido trópico”. Ao contrário, a deriva é uma felicidade (poderia quase dizer uma utopia no presente, uma salvação), não por esquecer ou não ter objetivo, mas por ser “o espaço de um infinito prometido” (KRISTEVA, J.: 1994, 12). Ela tem objetivo, embora ele possa mudar. Não é mais necessário fugir do passado, do peso das lembranças. O olhar não o torna simplesmente espectador, liberta-o das prisões interiores. “Desvio o rosto, não devo me deter tempo demais em meus próprios olhos. Aumento o som da canção, olho para fora enquanto o trem dispara sobre os trilhos. Preciso ficar sempre atento” (42). Atenção para perceber o mundo, a felicidade. Ela está passando, chegando. K está entre nós.
Para Caio, a passagem é do tarde demais para o cedo demais, como no encontro dos dois amantes em “Depois de Agosto”. Dois HIV positivos que se encontram pelas redes afetivas montadas pelos amigos. Amor e amizade compõem uma família sem lugar único, mutante, uma irmandade que ampara na leveza e possibilita a solidão ser mais rica, ser disponibilidade. Mesmo quando o encontro termina, ele não acaba, vira ritual profano. A ausência se povoa de presenças. A doença que poderia estigmatizar ainda mais possibilita o pertencimento. A revelação feita naquele agosto soa como negação. “Nunca mais o amor era o que mais doía, e de todas as tantas dores, essa a única que jamais confessaria” (247). A viagem aparece como decisão de afirmação da vida, o olhar é uma presença, um presente. O Outro chega anunciado. O encontro é marcado. Há resistência. Temor da recusa, de precisar do outro O encantamento se faz. Na fugacidade do encontro, a intimidade se faz, como não se faria com tantos outros em anos de convivência. Caio não teme o ridículo da confissão, o arrebatamento do afeto, o exagero do afeto, acredita na transcendência. Sim, todo amor é sagrado. Sim, todo amor é sagrado. Sim. Não há promessas de juras eternas, só possibilidades. E são estas possibilidades da deriva cotidiana que o renascimento final traz. “Porque era cedo demais e nunca tarde. Era recém no início da não-morte dos dois” (257). Como nos lembra Cristopher Larkosh: “Ao mapear os possíveis inícios da ‘não-morte, Caio sinaliza para o que está em questão, não somente na literatura, mas também na transferência inter-cultural, na contínua disseminação de possibilidades preciosas demais para serem perdidas ou obscurecidas”. Este encontro se repete, mesmo na distância. Ao som de um bolero, elas fazem amor, na mesma hora, cada um no seu quarto, na sua cidade. Em camas separadas, mas no mesmo diferente afeto. “e assim por todos os séculos e séculos porque é assim que é e sempre foi e será, se Deus quiser e os anjos disserem Amém” (258).
Em nenhum dessses contos há um tom panfletário, militante, antes sutil em que se fala do que acontece entre homens maduros. Nada de histórias adolescentes de assumir uma identidade, com suas dores e alegrias. Nada de culpas ou dramas marcados pela não-aceitação do mundo, mesmo quando solitários. Talvez a própria ausência de relações estáveis seja não limitação mas uma possibilidade para que surja outro tipo de relação para além da família. Desta não se fala. Pai, mãe, irmãos. É algo de se escapa ou sobre o que se silencia. Apenas sentimentos lançados na corrente dos acontecimentos e das memórias. Todos carregam nos seus corpos lembranças, não podem evitar. Todos marcados por encontros, desencontros, estórias, fins de estórias.
O entre-lugar das homoafetividades está entre identidades, entre homo e heterossexualidades, implica repensar as masculinidades para além de uma homossociabilidade homofóbica. O que é estar entre homens, quando não se sabe o que pode acontecer, a violência ou o beijo inesperado. A fragilidade onde se esperaria força. Lembro de Roberto Sifuentes no papel de Cyber Vado numa performance com Guillermo Gomes Peña. Cyber Vado, a encarnação chicana de Rambo nas pequenas cidades norte-americanos, como nossos garotos do jiu-jitsu. Ele permite, se oferece. Pinto seu peito e braços de verde. Depois, ele me pega pela mão. Me convida. Se deita no meu colo. Eu que sou? Mãe? Pai? Amante? Irmão? Rasgo sua camisa com uma faca falsa. Ele me pergunta: que queres?. Dou uma arma de brinquedo pra ele. Ele nada faz. Pego a arma e caminho com ela pelo seu corpo, pelo seu peito nu. Estamos frente a frente, ele de joelhos, em cima da plataforma de um palco. Ficamos nos olhando. Mais de uma voz feminina grita beija, beija. Obedeço o meu desejo. Beijo mas ele não retribui. Depois pega a minha mão e pede que desça como antes me pedira para subir.
Saio inseguro. Tanta violência mas tanta ternura. Não foi simplesmente teatro. Guardo os vestígios deste encontro, como daqueles nas filas de cinema, na porta dos teatros, nas ruas, nas estações de metrô, nas conversas da internet. Espero o encontro e else não têm me tem faltado. O entre-lugar é também um espaço político de confronto de imagens de culturas, espaço da frátria. O que fazer depois da morte do pai no dia a dia? O entre-lugar não é só um espaço frágil do intelectual e das produções periféricas, mas a base de uma política e estética de fronteira, de uma ética particularista da deriva.
É tempo de terminar. Conto a minha estória estrangeira. Há momentos de saudades que afloram quando menos se espera. Conheci Patrice numa sala de espera do aeroporto de Brasília. Como de hábito, dei uma olhada no lugar em que chego para saber onde me sentar. Ele estava sozinho, lendo. A conversa não foi difícil de começar. Ele ia para Recife. Eu, pra Natal. Dei o nome e telefone da minha pousada. Ele ligou dias depois. Dividimos o quarto. Saí com ele. Trocamos endereço. Ele se foi. Ficaram os cabelos louros, o corpo de menino dormindo ao meu lado. Numa outra cidade, que uma vez foi minha, onde nasci, agora estrangeiro, passo de ônibus ouvindo bossa nova. Sem querer me lembro de você, dele, de outro. Quero amanhecer ao seu redor. Preciso tanto saber como vai você. As lágrimas escorriam, quase escorrem de novo. O céu azul de tanta luz. É a música, a outra cidade que me trazem você, mesmo quando nada me lembra. Mudo de cidade. Revejo outra também muita amada. Chego com frio e dia limpo. Neva por toda a manhã seguinte. Começo cedo a andar. A neve bate nos olhos, nos óculos. Não consigo parar. Quero olhar, rever, pertencer, possuir. A neve vira lama no asfalto. De tarde ainda caminho. Pessoas, lojas, ruas. Pessoas. Não distingo, não lembro mais, lembro pouco, o suficiente para não me perder. Continuei a andar. Lembro os dias misturados. O garoto de cabelos verdes e unhas sujas no metrô. Não parava de arrepiar ainda mais os cabelos. Conversas rápidas. Olhares cruzados. De bar em bar. Rever a rua de restaurantes indianos em que ia comer porque era mais barato. Comia devorando o presente e o passado. Emocionado com uma simples sopa, num restaurante barato ou olhando recados dos estudantes no banheiro. A dona conversa comigo. Veio de Bombaim ou de algum lugar do Paquistão. Sorriso bonito. Não me lembro mais. Os traços e paisagens se confundem. Esqueço tanto que é sempre ver, nunca rever. Só a saudade muda menos. As lágrimas aparecem quando menos espero. Agora, no ônibus atravessando a cidade. à beira-mar. Agora, no dia seguinte, quando escrevo. As lágrimas escorrem também na sala de cinema. Tudo de leve e sutil me toca tanto. Não o abjeto, a crueldade, a desmesura. Meus olhos cansados de olhar se calam, tornam as imagens difusas, líquidas, flutuam perdidas no mar que vejo na madrugada. Nada aposso fazer a não ser esperar. Hoje é dia de voltar. Até quando? Até quando. Quero anoitecer. “Quando as estrelas começarem a cair, me diz, me diz o que que a gente faz aqui” (Renato Russo, “Angra dos Reis”)
Referências Bibliográficas:
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